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domingo, 18 de abril de 2010

Em todos os anos nessa indústria vital...*

Há semanas estávamos marcando de subir um dos 3 vulcões ativos da Guatemala: o Pacaya, que faz parte do complexo de 32, 33, 37 - não sei bem - vulcões espalhados pelo território guatemalteco. Falando assim, parece até parque de diversões. Na verdade uns estão mais pertos, outros longe, em uns se pode subir, já em outros o acesso é complicado. O lance é que o Pacaya é o mais visitado e vários amigos já subiram, sem problema algum.

Combinamos de ir eu, o Fábio (Brasil), o Fidel (México) e os chapines Ricardo, Mariella e Luisa. Deveríamos ter saído ao meio-dia da minha casa, mas por um erro de comunicação, somado à pontualidade chapina, saímos às 13h10. A ideia era subir o Pacaya (1h pra chegar e 1h30 para subir), ver o rio de lava, o pôr-do-sol, fazer algumas piadas, descer e ser feliz para sempre. Isso senão fosse 1. O sol sumiu pouco antes de chegarmos; 2. O ar ficando mais rarefeito a cada metro caminhado (a parte do “felizes para sempre” já seria cortada a partir deste tópico); 3. Chegasse numa parte da montanha com 3 caminhos diferentes e conseguir tomar os 2 errados e ter que voltar; 4. Um acidente jamais registrado no topo do volcão – até então – acabar com a expectativa de uma tarde 100% divertida.

Quando já estávamos a muuuitos metros de altura, mas ainda longe de ver a lava e a cratera (e, na verdade, de chegar de fato ao vulcão), umas pessoas que estavam descendo nos falaram que não poderíamos subir muito mais porque tinha acontecido um acidente. Nisso subiram uns carros da polícia e dos bombeiros e vimos que a coisa era séria e quisemos subir um pouco mais para ver até onde poderíamos chegar e para aproveitar o restinho de fôlego que ainda nos restava... Até que uma cena de filme baseado em experiências reais passou na nossa frente: uma menina com o rosto cheio de sangue montada num cavalo (se quiser você pode pagar para subir o vulcão em um cavalo) guiado por dois homens descendo a montanha dizendo-nos “não vão, não subam por favor” e chorava e o sangue escorrendo. A cena foi realmente impactante, porque não sabíamos o que dizer a ela, porque até então não sabíamos exatamente o que tinha acontecido. Um outro grupo que descia nos explicou que houve uma explosão e que caíram pedras e lava (e nós ainda queríamos vê-la, obrigada) que atingiu a um grupo e que havia dois mortos. Aí o choque foi maior e quando nos preparávamos pra descer veio uma vítima que tinha uns machucados nos braços atingidos pelas pedras que nos disse para não subir e que se quiséssemos ver lava que era melhor vê-la pela TV.

Começamos a descer aquele caminho arenoso em velocidade recorde, e as ambulâncias subindo e, para piorar, a neblina limita nosso campo de visão a 5 metros e começa a chover, e a chover mais forte e mais forte e A CAIR GELO DO CÉU! Não dava nem tempo nem espaço de abrir o guarda-chuva e quando já estávamos na metade do caminho para chegar ao estacionamento (o vulcão é tão pop que até estacionamento próprio tem) ouvimos o que pode ter sido mais explosões 5 km acima. Para terminar, caiu o mundo de água quando chegamos em terra firma que chovia mais dentro que fora do carro.

Quando já tínhamos recobrado a consciência nos demos conta de que senão fosse pelo atraso estratégico na saída da capital, poderíamos ter sido testemunhas oculares do acidente que matou um guia e uma turista venezuelana... Repetindo: o primeiro acidente desse tipo registrado na história ativa desse vulcão ou na história desse vulcão ativo, ainda estou confusa. Resultado: fomos agradecendo ao Deus do Milho pela nossa vida do Pacaya até chegar em casa, sãos, salvos e encharcados e ouvindo pelo rádio uma locutora dizer “buenas tardes mis amigos en esta linda tarde de domingo”. Acho que alguém esqueceu de abrir a cortina hoje.


Antes de subir, com nossos cajados marotos alugados




No meio da bagunça




Melando o rock...

Estamos bem e no final saímos para comemorar a vida com um delicioso crepe de Nutella, que é deus em forma de sobremesa na Guatemala.


* Essa é a primeira vez que isso me acontece.